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Endocruzamentos seriais e suas
conseqüências na criação de cães


José Walter Santos Ferro
C
riador, juiz de criação e seleção,
presidente da SFCPA e superintendente técnico da SBCPA



        Nos meus artigos anteriores sobre esse tema sempre procurei mostrar as conseqüências nefastas e irreversíveis que uma prática sistemática de endocruzamentos podem acarretar a uma criação de cães.  Esses cruzamentos seqüenciais entre cães com parentesco muito próximo – que aqui chamamos endocruzamentos seriais – realizados por pessoas inescrupulosas e irresponsáveis, estão provocando doenças genéticas irreversíveis em várias raças caninas.


        Esta prática decorre da busca incessante de novos padrões “eugênicos”, que refletem a cultura de priorizar o visual estético dos animais exibidos nas exposições de beleza, em detrimento da sua saúde física e mental.


        Estamos falando de cães com pedigree, cuja criação é controlada por cartórios gerais em todo o mundo (os “kenneis”), que têm a atribuição de zelar pelos padrões rácicos e pela manutenção de seus atributos físicos e mentais, os quais, em seu conjunto, asseguram suas reais aptidões para o trabalho. Mas, na prática, não é isso que ocorre. Endocruzamentos sistemáticos e repetitivos dentro da mesma família (pai com filha, irmão com irmã etc) têm provocado o surgimento de doenças genéticas graves em muitas raças caninas, tais como hipertrofia cerebral (cérebros maiores que os crânios), epilepsia e fêmeas incapazes de parir sem assistência.
        Segundo um documentário da BBC, exibido recentemente, os endocruzamentos seriais estão comprometendo seriamente o bem-estar e a qualidade de vida de cães de várias raças na Grã-Bretanha. Uma pesquisa recente, realizada pelo Imperial College de Londres, mostrou que essa prática é tão comum em pugs que os cerca de 10 mil animais dessa raça registrados na Grã-Bretanha vêm de uma linhagem de apenas 50 indivíduos distintos.  


        O veterinário Mark Evans, da organização pelos direitos dos animais (RSPCA), um dos entrevistados pelo programa da BBC, reconheceu que existe uma verdadeira ditadura de estética na criação de cães com pedigree naquele país, e atribuiu a culpa ao sistema de registro em vigor e às regras de aparência que determinam a lógica no mundo canino. De fato, o endocruzamento de cães de raça é permitido pelos regulamentos dos kenneis em quase todo o mundo, inclusive no Brasil. Uma das poucas exceções é a raça pastor alemão, que segue regras próprias de criação em todo o mundo e que não permite a prática de consangüinidades até o 2º grau inclusive. Deixarei para me alongar mais sobre essa raça nos dois parágrafos finais deste artigo.


        Assim como a indústria da moda impôs às modelos um padrão estético de completa magreza, acarretando doenças e até mortes, podemos dizer que os cães de raça no mundo estão com o seu bem-estar e sua qualidade de vida comprometidos pelas práticas do endocruzamento serial, impostas pela ditadura da uniformidade e da aparência, que, se não totalmente guiadas, são pelo menos amparadas pelas regras de registro e de competições.


        Estima-se que há uma população de sete milhões de cães na Grã-Bretanha e que três em cada quatro deles têm pedigree, e que estes geram para seus proprietários uma despesa de 10 milhões de libras esterlinas só com veterinários. Entretanto, um porta-voz do Kennel Club britânico disse  reconhecer que, quando as características se tornam exageradas, ocorrem os problemas de saúde, mas que a entidade não estimula isso. Ao contrário, está trabalhando fortemente para melhorar a saúde dos cães de raça, e tem procurado educar os criadores através de campanhas, incluindo os juizes, contra esse tipo de prática. Segundo depoimento de uma outra entrevistada do programa, Caroline Kisko, qualquer cão pode participar de exposições do Kennel Club britânico, cabendo ao juiz decidir se ele corresponde aos padrões da raça, mas o fato é que, em geral, mesmo com a saúde debilitada, muitos cães são autorizados a participar das exposições.


        Felizmente não é permitido à raça pastor alemão a prática do endocruzamento serial, mas apenas cruzamentos dentro da mesma linha de sangue, com aproximação mínima de 2-3, ou seja, um cão tendo como avô e bisavô o mesmo ancestral comum. Geralmente, na maior parte das vezes, as consangüinidades são ainda mais afastadas (3-4. 4-4, 4-5 etc). As regras de criação dessa raça são bem definidas e seguem um padrão único em todo o mundo. É, por isso, considerada a raça melhor desenvolvida, não obstante as diversas destinações de utilidade que tem, como um extraordinário cão de trabalho. Para isso contribui o fato de sua criação está fora do ecletismo dos kenneis  e seguindo regras uniformes de criação e avaliação qualitativas. Isto só é possível porque, em cada país, há uma entidade nacional especializada da raça pastor alemão, com corpo técnico de juizes e normas rígidas de criação. No Brasil, a SBCPA – SOCIEDADE BRASILEIRA CÃES PASTORES ALEMÃES (www.sbcpa.com.br), uma entidade cinqüentenária com sede em Brasília-DF e com entidades filiadas em quase todas as unidades federativas, tem exclusividade para o controle genealógico da raça pastor alemão no Brasil, que lhe foi outorgada por portaria ministerial. No Estado do Rio de Janeiro, a filiada exclusiva da SBCPA é a SFCPA – SOCIEDADE FLUMINENSE CÃES PASTORES ALEMÃES (www.sfcpa.com.br).


        Assim como no futebol, há a CBF – entidade especializada e exclusiva para o futebol no Brasil – que segue normas e regulamentos da FIFA – federação internacional de futebol, também há a SBCPA – entidade detentora do stud-book da raça pastor alemão no Brasil, e que segue orientações técnicas de organismos internacionais da raça, como a SV (sociedade alemã para o pastor alemão), a WUSV (sociedade mundial do pastor alemão) e a COAPA (confederação americana do pastor alemão). Cumpre ressaltar que a SBCPA é sócia fundadora da WUSV e da COAPA, que são as entidades máximas de controle da raça nos planos internacional e continental.  

 

 

Obs: Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente desde que citados o autor e a fonte (Cód. Penal, art. 184: Lei 9610/98 art. 5o., VII e NBR 6023, da ABNT).
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